Capítulo 1 – Uma Grande Tribulação – Parte 2

por Rafael Santos
Arte Destacada por Tyler Jacobson

O trio caminhava pela estrada de terra batida em direção a Águas Profundas. Ray e Lara iam à frente, e Turok mais atrás com o saco pendurado nas costas. Dentro, a cabeça do líder orc. 

– Fomos contratados pela milícia de Águas Profundas. – contava Lara. – Nossa missão era caçar esse bando de orcs que estavam atacando caravanas que vinham de Amphail mais ao Norte pela Alta Estrada, e de Vau da Adaga mais ao Sul, pelo Caminho do Comercio. 

– Entendo. Então vocês dois já são aventureiros com certa experiência? – Perguntou Ray cheio de curiosidade, podia estar diante de aventureiros que poderiam ensiná-lo muito. 

– Tão experientes quanto você, Ray. Pode-se dizer que esse é o nosso primeiro grande trabalho como mercenários.  

– De onde vocês são? 

– Eu sou de uma aldeia pequena perto de Vau da Adaga, chama-se Tiro do Arco. – Revelou a meio-elfa sem muito entusiasmo. – Tão pequena que nem está nos mapas para se ter uma ideia. Sou filha do líder da Patrulha do Crepúsculo, um grupo de patrulheiros que rondam a região perto da Floresta das Brumas e no Caminho do Comercio, barrando monstros e perigos que vem de lá. 

– E você, Turok? 

– De uma tribo de orcs dos Charcos Elevados. – Revelou o bárbaro também sem muita vontade de falar do assunto. 

– Ele foi meio que expulso da tribo dele. – Revelou Lara. 

– Por quê? 

– Porque eu era o único meio-orc da tribo. – Disse Turok meio receoso. – E meio-orcs não são bem vistos em meio a uma tribo de orcs intolerantes como a minha. Meu pai era o líder, mas foi traído e morto pelo seu maior rival dentro da tribo. Então, após meu pai morrer, eu passei a ser perseguido pelo líder. Durante uma noite, eu tive um sonho com meu pai, e ele disse que eu deveria desafiar o líder, matá-lo e me vingar por sua morte, e assumir a tribo. 

– Que história! – Exclamou o guerreiro. – E o que aconteceu? 

– Eu o desafiei, mas fui derrotado e quase morto por ele. Escapei por muito pouco. 

– Durante uma patrulha, eu e meu pai o encontramos. – Revelava Lara – Meu pai queria matá-lo, mas eu vi que Turok não era um orc completo, e sim um meio-orc, assim como eu sou uma meio-elfa. Eu meio que me identifiquei com ele. O levamos para a aldeia e cuidamos dos seus ferimentos até que ele se recuperou. 

– Eu não fui embora depois disso. – continuou o meio-orc. – Decidi ficar na aldeia e ajudar Lara e seu pai a defendê-la dos ataques de monstros da Floresta das Brumas. 

– Impressionante! – Ray tinha os olhos cheio de curiosidade com os dois aventureiros exóticos. 

– E você, Ray? Veio de onde? – Perguntou Lara. 

– Rassalantar! – Revelou o guerreiro – Não tenho uma história tão boa quanto a de vocês. Eu só fiquei cansado de viver uma vida na milícia da cidade e decidi me aventurar. Sair por aí destronando déspotas, pilhando tesouros de dragões, desbravando o mundo e ficar famoso até entre os deuses. Ou então morrer tentando fazer isso. 

Lara e Turok trocaram olhares e sorriram divertidos. 

– É um ótimo objetivo! – riu a meio-elfa. 

O trio avistou ao longe, de sobre a elevação, a cidade de Águas Profundas espalhando-se por uma extensão imensa de terra à beira do Mar das Espadas. 

– Lá está! Aquela é Águas Profundas! 

– Uma selva de pedra. – Turok continuou. – Eu não gosto porque tem gente demais. 

– Mas isso é o lado bom das grandes cidades, Turok! – riu Ray olhando para a cidade ao longe. – A civilização é o progresso desse mundo. 

Seguiram pela estrada, em direção aos muros de Águas Profundas. 

*** 

Erguendo-se das costas de seus portos profundos, por sobre toda a grande montanha e com sua imponente altura sobre o Mar das Espadas, está Águas Profundas, a Cidade dos Esplendores e Coroa do Norte.  

Águas Profundas é uma cidade imponente, bela em uma visão panorâmica, e mais bela ainda vista por dentro. As ruas são calçadas ou de terra batida, abarrotada de gente vivendo em uma balburdia quase infinita de vozes que se espalhavam por todos os lados. Para todos de Faerûn, essa grande metrópole serve de exemplo como um pináculo do que uma grande cidade pode ser em riqueza, estabilidade e influência. Aqui, os cidadãos trabalham, os nobres regozijam e os lordes mascarados conspiram e tramam, enquanto mercadores vendem bens de todos os tipos, vindos de todos os cantos de Toril.  

Comerciantes gritam pelos seus produtos e empresas mercantes contratam e prosperam no Distrito do Comercio, nobres se reúnem para tomar bebidas caras em suas mansões magnificas e conversar amenidades no Distrito Marítimo, enquanto a nobreza menor conspirava com traficantes e bandidos no Distrito Norte. Coisas sempre estão acontecendo em Águas Profundas, gente chegando e saindo pelos portões da Cidade dos Esplendores a todo momento.  

Na guarda da cidade, no portão principal, Turok e Lara estavam entregando a cabeça do líder orc aos milicianos da cidade, enquanto Ray olhava embasbacado para as mansões e a multidão de pessoas que transitavam pelas ruas. 

– Aqui está o seu líder orc. – Turok arremessou a cabeça decapitada do orc aos pés do sargento. – Fizemos seu trabalho sujo. 

A cabeça rolou para fora do saco, revelando a face retorcida em agonia eterna do líder orc, que tinha a boca aberta e torta, babando sangue. O sargento, um homem de meia idade olhou para a cena e revirou a cara de nojo para o lado. 

– Certo! Soldado, pague-os. – O sargento lutava para não ter que olhar a cabeça no chão. – E se livre dessa coisa. 

O soldado mais atrás, um jovem que aparentava ter a mesma idade de Ray quase pediu misericórdia com o olhar, mas o sargento não percebeu ou não quis olhar, já sabendo do protesto mudo do seu subordinado e apenas saiu dali.  

O jovem entregou um pequeno saco de moedas para Lara. 

– Obrigado, foi bom fazer negócio com a famosa milícia de Águas Profundas. – riu Lara ao ver a reação do soldado. – E faça bom proveito do nosso amigo aí. 

O Soldado fez uma careta de nojo para a cabeça no chão, Lara e Turok deram de ombros e foram até Ray que estava olhando a cidade maravilhado com tanto movimento. O guerreiro quase pulou de empolgação quando três sombras aladas passaram voando sobre o muro da cidade, e ele viu os Cavaleiros da Guarda Grifo sobrevoando os telhados das casas da cidade. 

– Pronto! Pegamos a recompensa! – Exclamou Lara enquanto jogava a bolsa de dinheiro para o alto e aparava. – Podemos ir embora agora. 

– Ei, vamos ficar mais um pouco! – Disse Ray quase implorando para a patrulheira. – Quero conhecer a cidade e quem sabe, conseguir algum trabalho aqui. 

– Eu não gosto de cidades grandes, e nem o Turok. 

– Mas devem estar famintos, não é? – Ray tentou convencer com um bom argumento. – Essa cidade deve ter muitas tavernas com comida e bebida da melhor qualidade. Podemos ir para alguma delas e nos alimentar antes de irmos para a floresta, ou seja lá para onde queiram ir. 

– Estou mesmo faminto. – revelou Turok passando a enorme mão na barriga e olhando para Lara. 

– Posso caçar gamos nas planícies. – Tentou argumentar a patrulheira. 

– Isso vai demorar muito! Por favor, eu prometo que quando acabarmos de comer, podemos ir passar a noite nas planícies. 

Lara e Turok trocaram olhares e o bárbaro ignorou, a meio-elfa revirou os olhos impaciente. 

– Certo, vamos! 

Ray quase pulou de alegria. E por que não pularia? Era Águas Profundas, a Cidade dos Esplendores. 

Águas Profundas é a típica cidade onde se encontra tudo que se procura. As pessoas da Costa da Espada costumam dizer que: “Existe um pouco de cada coisa na Cidade dos Esplendores”.  

Os prédios são altos, de pedra ou madeira, lojas e casas e tavernas e estabelecimentos, templos dedicados a uma variedade de deuses. Pendiam flâmulas e cartazes. Casebres e mansões se mesclavam. Uma visão curiosa para Ray eram as enormes estátuas de pedra em forma humanoide que existiam em completa harmonia com as construções, as casas construídas nos arredores de suas cinturas de pedra, dando uma aparência ainda mais magnifica e exótica a vários pontos da cidade.  

No coração da cidade, o Distrito do Castelo encantava envolto ao redor dos declives do Monte Águas Profundas e onde existia o magnifico castelo Águas Profundas com suas torres que parecem espetar o céu, e nos seus arredores cercados por jardins e construções. No Distrito das Docas, navios e fragatas com a bandeira de Águas Profundas e das outras cidades da Costa da Espada, como Portal de Baldur, Inverno Remoto ou até mais distante, como Amn ou Calimshan mais ao sul, aportavam e descansavam, enquanto homens poderosos e fortes trabalhavam e suavam dia e noite. 

Ray, Turok e Lara caminhavam pelas ruas de Águas Profundas no final da tarde. Mesmo assim, o comercio ainda fervia de compradores e vendedores que berravam seus produtos para quem passasse próximo às suas barracas ou lojas. 

– Eu não sabia que existia tanta gente no mundo! – Ray olhava ao redor maravilhado.  

Em Rassalantar, Ray já tinha visto muita gente, mas a cidade não se comparava a Águas Profundas. Para todos os lados que ele olhava, via gente, comercio, pessoas gritando, conversando em uma barulheira sem fim. 

– É por isso que eu não gosto de cidades grandes. – Protestou Lara.  

Para a meio-elfa, Águas Profundas era uma aberração impossível de se aturar. Veio de uma vila com um punhado de moradores que viviam atrás de paliçadas de madeira protegidos dos monstros que vinham da Floresta das Brumas. Era rústica e selvagem, mas era tudo mais calmo e simples.  

– Minha cabeça dói só de ouvir esse monte de vozes na minha cabeça. – Foi Turok que reclamou. 

Turok parecia atordoado demais com tudo aquilo, pensava em sacar seu machado e sair destruindo cada barraca de algum vendedor que berrava pelos seus produtos à venda. O meio-orc era selvagem, seu lugar não era dentro da cidade. 

– Vocês dois são mesmo estranhos. – Ray riu. 

O rapaz era um humano acostumado a viver em sociedade. Para ele, Águas Profundas era apenas a primeira de muitas descobertas que viriam. 

O grupo vagou pela cidade por algum tempo, e quando a escuridão chegou, encontraram uma taverna em uma parte movimentada da cidade. Na placa da frente, que balançava presa a duas correntes, havia gravado o nome “Portal Bocejante”.  

*** 

Entre seus estabelecimentos mais famosos, se encontra a Estalagem do Portal Bocejante. Um dos lugares mais requisitados de Águas Profundas. Local esse onde se reúnem aventureiros novos e veteranos em busca de bebida, comida e oportunidade de trabalho.  

Ou talvez, os mais loucos queiram adentrar a Montanha Subterrânea, uma infame masmorra que existe abaixo da Cidade dos Esplendores. Dizem que ela já foi habitada por um mago louco chamado Halaster, que atraía aventureiros para o interior de seus corredores repletos de armadilhas mortais, visando aprisioná-los ou matá-los apenas por puro prazer. A Montanha Subterrânea tem muitas entradas, mas a mais famosa fica na Taverna do Portal Bocejante. E essa entrada é um dos motivos da Taverna ter recebido esse nome.  

Na realidade, O Portal Bocejante surgiu da fortuna que Durnan, um ex-aventureiro, e hoje, o dono da taverna, conquistou em sua incursão ao interior da terrível masmorra de Halaster, o mago insano. Saindo de lá vivo, Durnan decidiu construir sua taverna sobre o local, de forma que, no próprio interior da taverna, está localizado o poço que dá acesso aos horrores da Montanha Subterrânea.  

Por dentro, o Portal Bocejante era uma bela estalagem, o chão era limpo, o salão era amplo e grande parte das mesas estava ocupada, mas o que chamava mais a atenção era o enorme poço que existia no meio do estabelecimento. Ray viu com curiosidade quando um grupo de aventureiros era descido para as profundezas do grande poço central. No palco, uma belíssima barda elfa tocava uma música animada em seu alaúde. 

– Foi nas estradas de Cormyr que nos conhecemos, foi na Floresta de Cormanthor que nos perdemos. Mas o reencontro foi emocionante e feliz, oh meu amor! – a elfa tocava com emoção, a história de um casal de aventureiros que tiveram seus encontros e desencontros em suas vidas de aventura. 

– É uma bela espelunca, não acham? – Riu Ray olhando o estabelecimento ao redor. Estava animado com tudo aquilo, o cheiro de porco assado exalando no ar, as conversas nas mesas, mercadores e aventureiros se misturavam para combinarem trabalhos. 

– Tão barulhento quanto lá fora. – reclamou Turok, mas quando uma garçonete passou diante dele com um grande leitão assado em uma bandeja, ele respirou fundo, tragando o delicioso aroma para suas narinas largas. – mas pelo menos o cheiro aqui é bem melhor. 

– Sejam bem-vindos à minha humilde estalagem, amigos!  

O trio viu um homem vindo na direção deles, aparência firme, traços rústicos, barba farta e vestindo-se de forma mais ao ambiente. 

– Sou Durnan, o dono dessa estalagem! – Se apresentou o animado dono do local. – O que vão querer? 

Fizeram seu pedido que foi prontamente anotado por Durnan que os conduziu em seguida para uma das mesas vazias perto do palco. 

– Sua refeição virá em breve, meus amigos. – Confirmou o taverneiro. 

O trio ficou ali, olhando toda a movimentação da taverna, perto do palco, uma pequena multidão se formava para escutar a bela música da barda élfica que encantava a todos com sua beleza e magia musical. Enquanto dedilhava o alaúde, a barda criava inúmeros efeitos de luz em forma de borboletas azuis ao seu redor, deixando todos hipnotizados. 

– Por amor, lutaram juntos, venceram muitas batalhas, mas a história termina triste, pois o amor de ambos encontrou seu fim, debaixo das torres de Myth Drannor. 

A elfa terminou a música com uma melodia mais triste e com menos brilho. Era possível ver uma leve tristeza em seu olhar, o que fez muitos que ali assistiam chorar de emoção. Houve uma explosão de palmas aos pés do palco, e a elfa se levantou e fez várias mesuras agradecendo a todos. 

– Obrigada! Obrigada! – Agradecia a elfa com mesuras elegantes e um belo sorriso. – Eu prometo continuar tocando essa noite, mas agora farei um breve descanso. 

A barda desceu do palco e foi até uma das mesas onde um jovem de cabelos curtos e bem penteado, vestia-se de forma elegante. Usava um robe azul com detalhes de prata. Estava sentado diante de um frango assado e cerveja, mas sua atenção estava em um livro de magia.  

– Ora, Vince, parece que você não está com fome. – falou a elfa para o rapaz que deu de ombros. 

– Estou apenas me focando em meus estudos da magia, minha cara Calima. – O jovem justificou sem tirar os olhos do livro enquanto virava a página. 

Vince Harpell era um rapaz de aparência tranquila e fria, pertencendo à famosa família de magos de Sela Longa, conhecidos como Harpell. Ele era um mago recém-formado na Academia Arcana pessoal da família, e desde que deixou sua cidade, não parou de estudar sobre a Trama mágica e as formas como ela pode ser usada. 

– O que dizem sobre os famosos membros da família Harpell é mesmo verdade. – Riu a elfa. 

– Apenas quero fazer jus ao sobrenome que carrego, Calima. 

– Só não vire um desses magos chatos obcecado por poder igual a esses que se enfurnam em laboratórios ou torres.  

Calima era uma elfa, bela como a vida, de pele branca, cabelos dourados e brilhantes amarrados em um coque com rabo de cavalo, olhos verdes como as folhas da floresta, e se vestia de forma elegante, usava uma capa verde folha, e uma espada longa na cintura. Tinha um alaúde belíssimo com algumas gravuras élficas. 

Era uma dupla curiosa, mas haviam se juntado meio que por acaso, durante uma escolta vindo do Norte, mais precisamente de Lua Argêntea. Calima acompanhou um grupo de mercadores até Yartar, e de lá, decidiu acompanhar uma segunda caravana para Águas Profundas, onde veio a conhecer Vince Harpell em Triboar, e então ambos passaram a viajar juntos e se tornaram amigos. Chegaram à Cidade dos Esplendores há pouco mais de uma semana, e agora, estão tentando se juntar a um grupo de aventureiros. 

– Você precisa relaxar um pouco, Vince. Aproveitar o momento. Pelos deuses! Estamos na Estalagem do Portal Bocejante!  

– Eu sei, mas isso não quer dizer que tenha que relaxar e deixar meus estudos de lado. 

Calima apenas negou com a cabeça e sorriu, pegou a caneca de hidromel e começou a beber. 

– Vamos pegar o pedido de ajuda da senhora Velrosa Nandar de Pedra Noturna? – Perguntou a elfa após tomar um longo gole de sua bebida. 

– Sim, mas não creio que apenas nós dois sejamos o bastante para lidar com essa ameaça. – Respondeu Vince ainda sem tirar a cara do livro. 

– Mas quem vai se juntar a nós? Todos os grupos de aventureiros aqui presentes já estão formados e não aceitam novos membros. 

– Talvez aqueles três ali aceitem. – Vince apontou em uma direção sem tirar a cara do livro. 

Calima viu o grupo de três pessoas: Ray, Turok e Lara, que não estavam cientes da conversa da dupla ao lado e conversavam seu próprio assunto. 

– Chegaram agora a pouco, e pelo que notei, não são tão experientes quanto nós. 

– Acha que eles aceitarão se juntar a nós? 

– Só saberemos se tentarmos contatá-los. 

Na mesa ao lado, o trio de aventureiros negociava.  

– Já sei! – Exclamou Ray para a surpresa de seus dois companheiros – O que acham de nós três formarmos um grupo de aventureiros? 

– Me parece ser interessante. – Riu Turok com a ideia. 

– Eu não tenho nada a perder mesmo. – Lara riu debochada. Ela, de certa forma, se divertia com toda animação do jovem guerreiro. – Embora tenhamos acabado de nos conhecer, acho que pode ser uma boa nos juntarmos e fazermos alguns trabalhos juntos. Vamos ver no que dá. 

– É assim que se fala! – Ray exclamou animado com a facilidade que foi reunir um grupo. Embora fossem apenas três por enquanto, o herói estava feliz, pois já era um começo promissor. – Devemos dar um nome para nosso grupo. 

– Um nome? Para que? – Lara indagou desinteressada. 

– Para que possamos ser reconhecidos, é claro!  

– Isso é uma grande besteira. – Retrucou a patrulheira sem interesse – Seremos apenas um trio de mercenários trabalhando por dinheiro e fama. 

– Somos três por enquanto, milady, mas em breve, seremos muitos mais. 

– Que seja, mas esquece esse negócio de nome.  

– Eu vou pensar em algo. – Ray riu ignorando a opinião de sua parceira.  

Um grupo de aventureiros era famoso pela bandeira que carregava. E toda bandeira vinha acompanhada de um nome do grupo, algo imponente e que os fazia ser reconhecido por onde passavam, e ele estava disposto a fazer a diferença. 

A comida do trio foi trazida à mesa, e logo estavam se fartando com um grande javali assado e tomavam hidromel de preço baixo, já que suas parcas moedas de ouro não eram suficientes para pagar uma refeição mais elaborada. 

– Espero que nossa refeição caprichada esteja ao seu gosto, amigos. – Durnan, o taverneiro estava perante os heróis querendo ouvir suas opiniões. 

– Está uma delícia senhor Durnan! – Declarou Ray com um sorriso satisfeito na face. 

– O javali está bem assado e consistente. – Era Lara que sabia preparar um Javali assado como ninguém. 

– Graças a Waukeen! – Agradeceu o taverneiro à deusa do comercio, padroeira dos comerciantes e de todos que mexem com empresas e organizações que visam lucro. – Estarei à sua disposição para o que quiserem. 

– Somos novos aqui na cidade. – Continuou Ray. – Estamos atrás de um bom trabalho que nos dê lucro. 

– Hmm, novos aventureiros… – Analisou o taverneiro enquanto coçava o queixo. – Águas Profundas é cheia de oportunidades, meu rapaz. Garanto-te que o que não falta é trabalho para novos aventureiros. 

– Poderia nos indicar algum desses trabalhos? 

– Claro, podem ver o nosso mural ali. – Apontou em direção a um mural onde vários papeis estavam pregados em um quadro negro, enquanto um aventureiro foi até lá e pegou um dos avisos. – Está cheio de oportunidades, aconselho a pegarem um. 

– Certo! Muito obrigado! – Ray agradeceu com um aceno. 

Durnan se despediu e saiu de volta para o balcão. Ray ia se levantar, quando percebeu a aproximação de duas pessoas à sua mesa. Eram Calima e Vince. 

– Saudações, meus amigos! – A elfa barda fez uma mesura para o trio. – Sou Calima Heartfire, muito prazer. 

– Sou Vince Harpell, de Sela Longa. – Vince acompanhou a amiga e saudou o trio. – Muito prazer. 

– Saudações! – Ray pareceu confuso, mas tentou ser cordial. – Sou Ray Radmond, muito prazer. 

– Desculpe incomodá-los dessa maneira. – Continuou Calima. – Mas gostaríamos de fazer uma proposta a vocês três. Se é que estão dispostos a ouvi-la. 

O trio trocou olhares incertos. 

– Estamos reunindo um grupo de aventureiros para um trabalho. – Era Vince a esclarecer. – E precisamos de, pelo menos, mais três integrantes. 

– Que tipo de trabalho? – Perguntou Lara interessada. 

– Uma nobre Águaprofundense convocou aventureiros até Pedra Noturna, pois está enfrentando problemas com goblinoides naquela região. Ela necessita de um grupo de aventureiros, mas como somos apenas eu e Calima, precisamos de mais alguns companheiros. 

Vince e Calima chegaram a pouco mais de uma semana em Águas Profundas, não tinham a intenção de procurar um trabalho de imediato, o objetivo do mago humano era se encontrar com a Senhora Laeral Mão Argêntea, a governante atual e Senhora Aberta da Cidade dos Esplendores, e então se alistar para as fileiras da Aliança dos Lordes, seguindo a tradição da família Harpell de sempre ajudar as cidades da Costa da Espada enquanto se aventuram. Porém, vendo que uma audiência com Laeral não seria fácil, mesmo ele sendo membro de uma das famílias mais poderosas, nobres e proeminentes do Norte, decidiu se focar em algum trabalho e chamar a atenção da governante.  

Durante a manhã desse dia que se finda, enquanto fazia seu desjejum, um mensageiro de Pedra Noturna chegou a Estalagem do Portal Bocejante com um pedido de ajuda da Senhora Velrosa Nandar que requeria um grupo de aventureiros para lidar com uma tribo goblinoide que estava assolando a região da aldeia.  

Vince viu, então, a oportunidade perfeita para chamar a atenção da Senhora Aberta de Águas Profundas. Que melhor maneira senão ajudando uma nobre de grande influência como Velrosa Nandar? Após ajudar Pedra Noturna, Vince iria pedir uma recomendação da nobre, para uma audiência com a própria Laeral Mão Argêntea. 

– Se estiverem interessados, – Continuou o mago. – garanto que a recompensa será muito satisfatória. 

– Isso me parece um trabalho interessante. – Ray sorriu confiante. – O que acham? 

– Bom… – Lara ficou pensativa por alguns segundos. – Por mim, nós vamos aceitar. 

– Vai ser bom partir o crânio de alguns goblins! – Turok sorriu cheio de presas. 

– Muito bem, então. – Ray estendeu a mão para Vince. – Nós aceitaremos nos juntar a vocês! 

– Perfeito! – Vince apertou a mão de Ray. – Partiremos amanhã cedo para Pedra Noturna. 

E aquele foi o início de algo grandioso. 


Continua no Capítulo 2 – Pedra Noturna – Parte 1

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