Capítulo 12 – A Fortaleza Élfica

por Ricardo Costa
Imagem destacada criada por IA (Crayon)


O sortilégio de teleporte conjurado por Kariel realizou sua façanha mágica, mas não da maneira que ele esperava. O elfo mago pretendia levar a si e os seus dois companheiros, os também elfos Mikhail e Vaera, até o extenso e circular pátio verdejante que rodeava Evereska e seus altos muros brancos, porém o trio de aventureiros estava agora em uma estrada, margeada por rochas tão altas que era impossível para eles vislumbrar qualquer horizonte. Só haviam dois caminhos viáveis: para frente, subindo um acentuado aclive, e para trás, ladeira abaixo. Em ambos, a visão de profundidade era oculta por uma névoa fria e densa, que trazia uma sensação de insegurança e mistério. Vaera estranhou o paradeiro diferente do que esperava e dúvidas surgiram em sua mente. Parecia que algo havia dado errado. Pensava em ver agora os portões prateados da cidadela élfica e não a paisagem montanhosa e, de certa forma, sinistra onde estava. Perguntou então ao arcano de cabelos azul-claros da Comitiva da Fé, para aplacar sua incerteza.

— Kariel… onde estamos? Nos perdemos? Esta névoa não me parece natural…

— O mythal interferiu na precisão do teleporte, provavelmente — respondeu Kariel — Mas não devemos estar muito longe.

— E não estamos! — respondeu Mikhail, que era evereskano e conhecia bem o entorno de sua cidade — Estamos na estrada para Evereska, que corre por entre o Shaeradim, a cadeia de montanhas que a rodeia. A névoa é uma mais uma proteção oferecida pelo mythal. Só devemos caminhar em frente e em breve chegaremos lá.

Andaram, então, subindo a aparentemente infinita e irregular ladeira de pedra, que ora se dobrava em curvas ora em longas retas íngremes. Vez por outra, as paredes rochosas que ladeavam o caminho se abriam em fendas, e uma paisagem de pequenos bosques espremidos entre colinas se mostrava, centenas de metros abaixo deles, mostrando o quão alto estavam.

Pouco mais de quarenta minutos de caminhada, um forte guincho de águia voltou a atenção dos andarilhos para o alto. Grandes criaturas aladas se projetaram e, rápidas como flechas, desceram do alto, pousando a frente, afastando as névoas e bloqueando o caminho. Eram três majestosos hipogrifos, e sobre suas celas, três igualmente imponentes guerreiros élficos, em armaduras belas e prateadas, repletas de filigranas douradas. Um deles desmontou e retirou o elmo. Era uma elfa, de cabelos dourados e expressão séria.

— Quem são vocês, que se aproximam de Evereska? Sou Elanar Milithiel, dos Espadas de Evereska!

Mikhail se adiantou.

— Salve! Sou Mikhail Velian, filho de Tassadur e Gedalli Velian, irmão de Noan Velian, que acredito pertencer também aos Espadas de Evereska. Estes são meus companheiros, Kariel Elkandor, príncipe de Kand, e Vaera…

— Vaera Thelandil, de Árvores Emaranhadas! — tomou assim, a palavra — Viemos em nome do povo livre que vive nos Vales e em Cormyr e que é oprimido pela tirania. Pedimos respeitosamente acesso à Evereska e uma audiência com os Anciões da Colina para um assunto de guerra.

A soldada evereskana então respondeu.

— Mikhail Velian… pelo que me diz, seu irmão, Noan, é meu superior em nossa guarda e seu pai é um dos Anciões da Colina. Ainda assim, seu nome e de seus companheiros devem ser anunciados, antes que adentrem os portões prateados de Evereska. Por enquanto, podem prosseguir sua caminhada. Serão adequadamente recebidos na entrada da cidade. 

Dito isto, a elfa recolocou o seu elmo e subiu na sua montaria alada. Em uma ação simultânea, os três cavaleiros subiram aos céus, desaparecendo nas névoas. 

— Seu pai é um dos Anciões da Colina!? — olhou Vaera com surpresa para Mikhail — Isso me parece uma boa notícia para nossa causa! Poderia ter nos contado isto antes!

— Poderia, se soubesse disso! — respondeu o elfo clérigo de Mystra — E meu pai ser um dos Anciões pode não ser algo tão bom assim! Tivemos muitas diferenças no passado!

O trio subiu por mais vinte minutos. O caminho foi se abrindo e, ao mesmo tempo, tornou-se possível ouvir, de modo cada vez mais claro, vozes distantes, barulhos metálicos e outros pequenos sons, que indicavam uma grande quantidade de pessoas. A curiosidade foi o combustível que os fez vencerem os últimos metros de subida e, por fim, vislumbrarem o platô, descortinado pelpor uma grande passagem pelas montanhas.

Assim que terminaram o caminho , o frio do inverno magicamente cessou, assim como as brumas. Esperavam encontrar agora o amplo e vazio campo relvado que rodeava a bela cidadela, iluminado ao sol róseo do crepúsculo, mas o lugar estava cheio de tendas brancas e elfos, em um grande acampamento militar. Soldados em armadura eram a maioria. Treinavam sua técnica de espadas, outros comiam e alguns até tocavam flautas. Flamulas tremulavam nos topos das tendas e a elas Kariel dirigiu um olhar especial. Reconheceu o padrão do estilizado sol dourado sobre o pano verde.

— Encontro Eterno. Estes elfos são de Encontro Eterno! — decretou Kariel.

— O que um exército de Encontro Eterno faz acampado às portas de Evereska? Estão a milhares de quilômetros de sua ilha! — exclamou Mikhail, surpreso.

— Encontro Eterno!? Pensei que este reino não passasse de uma lenda! — Vaera seguia impressionada — Mas rogo que o Seldarine1 os tenha enviado para nos ajudar!

— Vamos andando — Kariel interrompeu o momento de reflexão — Se formos recebidos nos portões, como disse aquela guerreira, tenho certeza que teremos algumas respostas.

O trio então andou pela estrada, agora regular e pavimentada de pedras brancas, recortadas e encaixadas umas nas outras, formando intricadas silhuetas de pássaros, aves, unicórnios, pegasus e outras criaturas. O caminho cortava o campo, até chegar aos grandes portões prateados, cujo metal também exibia a arte que representava, em alto relevo, flores, pássaros e criaturas silvestres e mágicas. No centro, o símbolo de uma estrela de oito pontas dentro de uma meia-lua. Na muralha alta e completamente branca e lisa, não haviam ameias nem sentinelas visíveis. Ainda observavam o entorno, quando as folhas dos portões se abriram suavemente, sem que rangido ou nenhum outro ruído fosse emitido.

Um elfo antigo de cabelos prateados e aparência distinta, vestindo um rico robe de mago, branco e azul, com detalhados bordados, surgiu. Escoltando-o, seis guerreiros, três de cada lado, usando uniforme semelhantes aos soldados que surgiram montados em hipogrifos, na hora passada. O idoso foi a frente e tomou a palavra, serenamente.

— Sou o Lorde Erlan Duirsar, o Vigia Sobre as Colinas, líder do Conselho dos Anciões da Colina. Vim pessoalmente dar-lhes as boas vindas à Evereska. Perdoem-me a recepção apressada e sem cerimônia, mas a visita foi inesperada. Por favor, Coronal Kariel de Kand, Mikhail Velian de Evereska e Vaera Thelandil, de Árvores Emaranhadas, sigam-me. O Palácio dos Lordes está próximo e acredito que podemos caminhar e dispensar conduções.

O Lorde Duirsar e sua escolta viraram-se e percorreram o caminho a frente, enquando o trio de recém chegados entrava muralhas adentro, revelando o esplendor que era estar em Evereska.  Casas brancas e azuis, telhandos de ardósia e prata, muitos jardins, com as mais belas e coloridas flores e repleto de borboletas com asas de vívidos matizes. Além dos passantes que olhavam com alguma curiosidade os recém chegados, haviam crianças que brincavam e sorriam, algumas até subiam pelas paredes, como se a gravidade não exisitisse. A frente ia crescendo a visão de um belo pálácio cor de terracota, encimado por uma cúpula de cristal. Mesmo diante de todas aquelas maravilhas e da urgência da missão, os pensamentos de Kariel estavam no título que o líder evereskano lhe atribuiu: “Coronal”. Ele era um príncipe, mas seu pai, Reliel, é quem era o Coronal de Kand. Os pensamentos confusos deram lugar a uma inquitação angustiante, que o elfo aprisionou, ainda que temporariamente, em seu coração.

A comitiva evereskana, seguido dos aventureiros, subiu as escadarias do Palácio dos Lordes,  passou por sentinelas e pelo grande pórtico em forma de ogiva. Assim que entraram, um servo surgiu, inclinou-se em uma vênia e, educadamente, pediu os pesados casacos que haviam abrigado Vaera e Mikhail do frio da montanha, levando-os para um cubículo próximo. Percorreram um largo corredor, de paredes pintadas com motivos florestais, iluminado por luzes que partiam de vitrais coloridos. Então, uma porta foi aberta e chegaram a uma sala ampla, dominada por uma grande mesa de madeira rústica, rodeadas de cadeiras no mesmo estilo. O Lorde Duirsar, com um aceno e um sorriso protocolar, convidou-os a sentar e, em seguida, fez o mesmo. Quatro dos soldados ficaram de pé, próximos a porta, e outros dois deixaram a sala.

— Então, senhores? No que Evereska pode ajudá-los? — perguntou o Líder do Conselho.

— Lorde Duirsar — tomou a iniciativa Vaera, ansiosa — Representamos um grupo chamado Os Últimos da Floresta. Organizamos uma resistência na Floresta do Rei contra o Zentharim e o tirano Fzoul Chembril. Ele invadiu os Vales e controla o governo do cruel  Azoun VI, uma marionete em suas mãos. Viemos pedir o apoio de Evereska, já que a Cidadela Élfica é fronteiriça a Cormyr e pode ser o próximo alvo da cobiça de Fzoul.

O Lorde pensou por alguns momentos, antes de responder.

— Cara Vaera, me interesso pelos assuntos de Toril e sei dos acontecimentos envolvendo a guerra dos homens ao Leste e deste que se chama Fzoul. Muito embora considere este humano vil, não acredito que Evereska esteja ameaçada por ele ou pelos seus exércitos. A Fortaleza Élfica tem um acesso difícil, temos o mythal e o nosso próprio exército para defendê-la, além dos nossos aliados de Encontro Eterno, que estão acampados, como pôde ver. Não encontro razões para que tomemos algum partido neste assunto.

— Lorde — comentou Mikhail — Com todo o respeito, devo lembrar-lhe da crise dos phaerimns, décadas atrás. Os homens de Águas Profundas, liderados por Khelben Arousun, derramaram sangue nas terras evereskanas  para repelir aquelas criaturas  e ajudá-los a salvar a Cidadela da destruição. Eu e meu amigo Kariel estivemos aqui e lutamos essa batalha.

A feição do idoso elfo mudou. De repente, a constatação de Mikhail lhe fez sentido e obrigou a sua mente a rever os argumentos.

— De fato, Mikhail Velian…os homens já nos ajudaram. E nós, elfos, não devemos deixar isto cair em esquecimento. No entanto, muitos dos Anciões que viviam a epoca dos phaerimns morreram nos conflitos e nem todos que os substituíram partilham deste reconhecimento e buscam se isolar do que acontece além de nossos limites. Ainda assim, acredito haver mérito para que este debate seja levado ao Conselho. Marcarei uma reunião entre os senhores e os Anciões da Colina. Nos reencontraremos na noite de amanhã e poderão expor seus argumentos, com mais detalhes. Até lá, podem permanecer como convidados no Palácio dos Lordes, se desejarem.

— Se não for um desacato, senhor Lorde, vou hospedá-los na casa de minha família, ofereceu Mikhail.

— Como queira, Mikhail. Certamente o seu pai, o Lorde Ancião Tassadur e sua mãe, a Senhora Gedalli, vão apreciar o seu retorno.

— Não sabia que meu pai era um Ancião da Colina. — comentou o clérigo de Mystra.

— Sim. Ele foi eleito para ocupar a cadeira do Lorde Ancião Varn Tissiviel, que realizou sua passagem para Arvandor. — O Lorde Duirsar fez uma pausa, lembrando-se que tinha um compromisso e se encaminhou para encerrar o encontro — Perdoe-me a rudeza, mas devo partir. Tenho uma reunião a respeito do acampamento.

— Porquê há tantos elfos de Encontro Eterno às portas de Evereska, Lorde Duirsar? — quis saber, Kariel.

— Coronal… isto se relaciona com a história de Cormathor, conhecida hoje por Myth Drannor. Era a capital de Cormanthyr e conhecida como a Cidade das Canções, por conta de suas inúmeras belezas, cantadas por bardos de todos os tipos. Porém Cormanthor caiu ante a uma horda de demônios, na Guerra das Lágrimas. O principe Amlaruil Florlunar, de Encontro Eterno, decidiu marchar com seu exército e cruzar Faerûn para confrontar as criaturas das trevas que ainda vivem na cidade e recuperá-la definitivamente para os elfos. Nós, de Evereska, decidimos auxiliá-los nesta demanda.

— Agradecemos as informações e a recepção, Lorde Duisar — disse Vaera, não querendo se estender mais do tempo dispensado pelo anfitrião — Ficamos honrados em estar Evereska e aguardaremos a reunião.

— Em nome da Cidadela, desejo-lhes boa noite!

O Lorde Duisar acenou e levantou-se, seguido dos convidados. Após uma rápida despedida, o Lorde Ancião tomou o caminho contrário, rumo aos interiores do Palácio, enquanto o trio de aventureiros retornou pelo caminho feito anteriormente, escoltados pelos soldados até o portão. Ao chegar na entrada, minutos depois, recuperaram os casacos de frio e desceram os degraus, caminhando entre o pavimento branco das ruas da cidadela, iluminados por postes mágicos, cujas luzes se ancendiam a medida que as estrelas começavam a surgir no céu. Eram agora guiados por Mikhail em direção a casa da família Velian.

— Mikhail…Vaera… – chamou Kariel, enquanto detinha o passo. O mago parecia preocupado — Sinto muito, companheiros, mas não devo estar com vocês hoje à noite. Para que eu seja chamado de Coronal, significa que algo aconteceu ao meu pai. Decidi ir a Kand e descobir o que aconteceu. Não pretendo me demorar e retornarei a tempo para a reunião com o Conselho.

— Faça o que melhor confortar seu coração, meu amigo! — disse, Mikhail, repousando uma das mãos no ombro de Kariel — Que Mystra o acompanhe!

— Sim. Não se preocupe! — complementou Vaera — Eu e Mikhail podemos continuar a nossa missão!

Kariel sorriu, pensou em seu distante reino e em seguida pronunciou as palavras arcanas: “Magicis Oneraris”. Em instantes, desapareceu. Vaera e Mikhail seguiram o seu caminho até um sobrado belo, branco e prata, ornado de flores e vinhas. Mikhail sorriu quando viu seu antigo lar. Há muito  estava fora, desde que decidiu, a contragosto do pai, seguir a deusa da magia Mystra e vagar pelo mundo. Já Vaera estava extasiada por tudo em Evereska. Nunca havia visto um lugar tão impressionantemente belo e mágico. Antes que avançasse em direção da entrada, a elfa sentiu algo no bolso do casaco de peles. Um papel que não se recordava de estar lá. Ela então o abriu e leu.

Filhos de Corellon

Os homens são uma raça destruidora e inferior. Suas existências insignificantes somente servem para desvirtuar, modificar ou aniquilar tudo que é belo e vive. Nenhuma gota de sangue élfico vale a vida destes seres. Nossos esforços deveriam ser para eliminá-los, não salvá-los. Deixem que morram com seus tiranos e conflitos eternos.

Aqueles elfos que amam os humanos ao ponto de defendê-los com a vida devem sofrer com eles o seu destino mortal. Desistam deste empreendimento ou a Lâmina Vitoriosa do Povo cairá sobre suas cabeças!


1 – Seldarine – Como os elfos chamam coletivamente o seu panteão de deuses.


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