UM PEQUENO DIÁRIO

Às vezes, o que nos falta é aquela ideia inicial para uma aventura. Um disparo para montarmos PdMs, criaturas, encontros, itens…
Uma boa ideia pode vir de uma imagem, uma música, uma visita ao museu, uma revista em quadrinhos, um livro, um anime, um jogo eletrônico ou, até mesmo, de uma mídia especializada em RPG! Talvez seja isso que você estava buscando. Se era, não falta mais. 
Eu escrevi esse pequeno texto há muitos anos. Minha ideia era usar quando o grupo viajasse descendo o Rio Ashaba, na terra dos Vales, saindo do Vale das Sombras. O grupo representaria o Vale da Adaga, recém libertado das mãos dos Zhentarim, em uma reunião dos representantes dos Vales. Porém, a reunião acabaria coincidindo com uma festa da aristocracia local pois as sobrinhas do representante local (ou de alguém tão importante quanto) completariam 16 anos. Apesar de não haver diferença de tratamento de gênero no local, por elas serem gêmeas, e por seus pais terem sido aventureiros e sido mortos por isso, seus tios queriam que elas apenas vivessem uma vida “simples” como nobres locais.

O sangue das garotas, no entanto, falava alto e as empurrava para a aventura.

Na mesma época um covil de bruxas começou a sequestrar jovens nos vilarejos próximos buscando criar um ritual que as deixasse jovens para sempre. O covil possuía forças como ogros, trolls e fadas malignas trabalhando para si e não teria problemas em eliminar qualquer oponentes que colocassem seus planos em risco.

Construí a época PdJs e pistas falsas para que o grupo demorasse um pouco até ir atrás do rastro do covil. Emboscadas, suspeitas infundadas sobre um Licantropo Morcego (um werebat) e todo um preâmbulo até que a lua cheia se aproximasse e eles precisassem correr para impedir o ritual.

E tudo começava para os jogadores quando as garotas desapareciam em sua própria festa!

A investigação, em seus primeiros passos, levava ao diário de uma delas. Enquanto uma possuía algumas habilidades arcanas (a que escreveu o diário), a outra possuía habilidades furtivas. Na verdade, o desaparecimento delas se devia ao fato de que elas resolveram começar a investigar o sequestro dos jovens. Logo, elas estariam a um passo a frente dos jogadores, deixando pistas e análises (corretas ou equivocadas) sobre o que achavam.

E elas só seriam capturadas e colocadas junto com os demais jovens (garotos e garotas) quando a história estivesse no clímax e os personagens acreditassem que chegariam a elas antes das bruxas, e que tinham tempo para impedir o ritual (e teriam, mas muito menos do que acreditavam).

Dito isso, talvez com tudo aqui escrito você já tenha bolado algo pra sua nova campanha. Mas o que deixo abaixo é o diário, ainda sem todos os nomes, que escrevi a época. Nunca mestrei essa campanha. Resolvemos jogar World of Darkness (a versão mais antiga) e não retornamos mais àqueles personagens.

Espero que seja útil. Bons jogos!

Diário
  

Hoje é meu aniversário. Meu e de minha irmã gêmea. Não apenas meu aniversário, mas meu aniversário de 16 anos. Aqui em [cidade] esta data tem sempre um significado especial. Pelas leis locais, nesta idade nos tornamos independentes e senhores e senhoras de nossos destinos. Mas mais que isso, para os de nossa classe, é o momento de apresentação a sociedade. Um dia solene, que nos coloca como membros da comunidade. Entretanto, na minha opinião, o que esperam é apenas que eu e minha irmã consigamos um bom marido. Ainda mais depois da morte de nossos pais há alguns anos…

Meu tio [nome do tio] preparou a festa e minha tia [nome da tia] há semanas nos arruma vestidos caros e jóias da família que nos permitam ficar apresentáveis, ou o melhor que for possível. Pois apesar de não sermos especialmente lindas, temos algum encanto. Hoje deveríamos passar o dia todo por conta disso. Já anoiteceu e minha irmã, como de costume, conseguiu escapar de tudo, deixando-me não só com a pressão dos familiares como com as incumbências dos arranjos finais. Tive que usar de todas as artimanhas pra conseguir fugir. Aqui, na biblioteca de nossa casa, ninguém me encontraria. A luz de minha vela dificilmente escapará pelas frestas da janela fechada deste sótão cheio de livros e poeira. Meu pequeno paraíso pessoal.

Eu sei que minha fuga é egoísta. Pras famílias nobres, o aniversário de uma garota é sempre um momento especial. O aniversário de 16 anos é o evento mais esperado por todas elas. Imagine então quando não uma, mas duas fazem aniversário de 16 anos. Eu e [nome da irmã] não deveríamos colocar nossa família em tão incômoda posição. Toda cidade espera pela festa das gêmeas. Ainda mais com os desaparecimentos de crianças que aconteceram nestes últimos dias. Esta festa é a chance de fuga da realidade que todos esperavam. Mas quem foge somos nós. Que culpa temos se odiamos a aristocracia e toda esta vida fútil?

Eu ouço a festa daqui. A música dos menestréis, as vozes altas… Mesmo com esta chuva que não para de cair. A única interrupção que às vezes ocorre é um trovão que segue o clarão intenso que enche o cômodo ao atravessar a claraboia. A música às vezes se confunde com o assovio do vento. Parece que Talos, o destruidor, não quis que nosso aniversário passasse em branco.

Eis que precisei parar de escrever pra reacender a vela. Esse vento está de matar. E demorei um pouco pra me reacostumar com o escuro. Meus olhos fitaram as sombras que tudo cobriam e fiquei na constante impressão de que algo me observava. Ali, no canto escuro, ao lado da estante. Quando se está sozinha, a mente parece pregar truques na gente. É como quando a gente se sente observada mas sabe que ao virar a gente não vai ver nada. Acendi a vela, finalmente, e me virei. Imagine a sensação terrível de, ao olhar por cima do ombro, ao invés de não ver nada, ver… algo. Ali, no canto escuro, eu vi meu algo. Eu, morrendo de medo, tentei disfarçar, não olhando diretamente praquilo. Eu estava petrificada. Apenas acompanhei a criatura dar um passo pra trás e afundar nas sombras. E não havia mais nada. Eu voltei a você, meu diário. Apenas pra ter a impressão que o desenho que fiz em sua primeira página estava vivo. Ele sorria estranhamente para mim. Neste momento de terror a porta se abriu. Meu coração saltou-me a boca e eu quase desmaiei. Era meu primo Charles. Ele me pedia que me juntasse aos outros na festa. Pedi que ele esperasse pra eu terminar essas linhas. Bem, amanhã tomarei coragem e sairei pra investigar os desaparecimentos das crianças, já que a guarda desta cidade não pode ou não deseja fazer nada. Espero que não tenha nenhuma relação com… aquilo. Vou parar de escrever sobre isso e esquecer. Já dizia minha vó. Falar do mal é convidá-lo para jantar…

Créditos

Texto, revisão e ideia original de Rafael Castelo Branco de Oliveira Torres
Imagem destacada: Giovanni Domenico Tiepolo – Dança no Campo
D&D e Forgotten Realms são produtos de propriedade da  Wizards of The Coast.
Originalmente publicado em Meus Pergaminhos.

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