Entrevista com Persio Sposito – Kronos Games/Galápagos Jogos

Por Ricardo Costa

Os Aventureiros dos Reinos entrevistaram Pérsio Sposito, gestor do projeto de localização do Dungeons & Dragons 5ª Edição da Galápagos Jogos. A despeito de participarmos ativamente do projeto, como todos os fãs de D&D, existem informações que não estão ao nosso acesso. Sendo assim, buscamos descobrir a visão da Galápagos Jogos e obter respostas sobre questões envolvendo o processo de tradução e o lançamento do Dungeons & Dragons no Brasil. Confira logo abaixo:

Aventureiros dos Reinos – Bom dia, Pérsio! Na palestra do sábado discutiu-se o processo de tradução e localização do D&D. Quais são os principais desafios dessa fase do projeto?

Pérsio Sposito – Olá pessoal. Obrigado por participarem conosco da discussão. Os desafios são muitos e raramente se limitam a escolhas de terminologias. Antes de discutir a localização é preciso entender o momento do D&D globalmente. Nunca houve uma edição tão popular, que agradasse tanto e que fosse tão facilmente assimilada por novos jogadores. Todas essas características da 5ª edição são – com todos os méritos e louros –, fruto de diversos fatores. Entre eles, os que mais chamam a atenção, sistemicamente, são: A consistência de terminologias multi-idioma; a diminuição de duplo uso e/ou dupla interpretação de termos; o aumento de terminologias com uso/grafia/sonoridade exclusivas (que só se vê em D&D). Entrando no mérito da localização propriamente dita, sempre existem diversos fatores que dificultam a chegada de uma edição, principalmente quando ela já passou por outras editoras/tradutores/edições. Quando existe material legado, fica a impressão e expectativa de que as terminologias usadas anteriormente devem ser perpetuadas. Essa premissa, sozinha, já rema contra as diretrizes mais atuais da 5ª edição de D&D, por dois motivos: 1) Um dos fatores de sucesso desta edição corresponde diretamente ao fato de colocarem um ponto final em muitas coisas do passado, reescrevendo-a com formato novo, simplificado e consistente desde o primeiro até o mais recente volume; e 2) Diminuir uma festa de interpretações globais em cada idioma, evitar as dificuldades de direitos de tradução e manter a consistência global, a WoTC tomou uma decisão simples e funcional: tornou-se a dona das localizações em todos os idiomas, licenciando apenas o direito de publicação. Esta última atitude jogou a última pá de terra nas inconsistências terminológicas de toda a obra ao redor do mundo. Esse é um dos motivos para existirem regras tão rígidas quanto ao que se pode ou não fazer ao localizar o conteúdo da D&D 5ª edição. Em resumo, eu diria que o maior desafio é justamente entender que vivemos um momento diferente a partir da 5ª edição. Um momento que estabelece novas regras e mudança generalizada, sem perder, contudo, as características únicas de D&D. O passado (bom ou ruim) realmente ficou para trás. Sempre haverá a discussão sobre gostar ou não desse ou daquele termo, mas dificilmente haverá termos que significam – no contexto de D&D –, mais do que uma coisa.

Aventureiros dos Reinos – Os corebooks estão sendo aguardados até o final deste ano. Eles serão lançados de uma única vez? Ou haverá um intervalo entre eles?

Pérsio Sposito – Por “corebooks” entende-se: os 3 livros básicos (Players Handbook: Livro do Jogador, Monster Manual: Livro dos Monstros e Dungeon Master’s Guide: Livro do Mestre) e dois produtos acessórios (Starter Set: Kit Introdutório e Dungeon Master’s Screen: Escudo do Mestre). Ou seja: os cinco produtos (nem todos são livros) são “core”, i. e. material básico que deve ser lançado antes de qualquer outro. O calendário de lançamentos não foi divulgado, mas já foi oficializado que serão lançados a partir do segundo semestre de 2019. Após este ciclo inicial de lançamentos inicia-se uma segunda fase com outros volumes, tanto de material novo quanto de módulos e suplementos que já foram publicados em inglês. É importante mencionar que não existe uma ordem obrigatória/cronológica, mas certamente daremos atenção especial aos volumes que foram mais aclamados pelo público, quer sejam acessórios, módulos de aventura ou suplementos.

Aventureiros dos Reinos – O que os fãs do D&D podem esperar da Galápagos em relação aos lançamentos de materiais publicados lá fora? A proposta é publicar todos os livros?

Pérsio Sposito – Conforme mencionado anteriormente, a proposta é trabalhar em duas frentes paralelas: dar sequência aos lançamentos atuais enquanto materiais legados selecionados também sejam localizados para o português. Inclusive já lançamos um pequeno desafio para a própria comunidade ao perguntar para o público presente na palestra do Doff, no dia 27/04, qual dos dois volumes eles preferiam que fosse lançado primeiro: Guia do Aventureiro para a Costa da Espada ou a Maldição de Strahd. O público gritou Baróvia! Futuramente vamos envolver a comunidade em outras escolhas interessantes sobre o material que está por vir.

Aventureiros dos Reinos – Materiais acessórios, como cards e miniaturas estão no radar da Galápagos?

Pérsio Sposito – Sim. No entanto não há nada a ser divulgado sobre isto no momento.

Aventureiros dos Reinos – O D&D lá fora vem apresentando bons resultados. Acha que o aguardado lançamento do D&D poderá aquecer e estimular o mercado de RPG nacional mais uma vez, como em tempos anteriores?

Pérsio Sposito – Certamente. Hoje temos o D&D como um dos principais estimulantes para o mercado internacional de RPG. Não haveria como ser diferente aqui.

Aventureiros dos Reinos – O que acha que a Galápagos pode oferecer de diferencial para o público do D&D e de suas linhas no Brasil, em relação ao que foi feito no passado?

Pérsio Sposito – Primeiramente é a própria consistência do produto em termos globais. Teremos desde o primeiro livro falando a mesma “linguagem” que todos os demais idiomas, linguagem essa que será replicada até o mais recente lançamento. Com as regras de consistência globais de D&D o processo de localização ficou mais complexo, porém é a garantia de melhores resultados em termos sistêmicos e de consistência. 

Aventureiros dos Reinos – Por fim, nós, dos Aventureiros dos Reinos, estamos, como fãs e jogadores que somos, muito honrados em participar desse processo da vinda do D&D 5ª edição ao Brasil, atuando na tradução e localização do material. Qual é para você a importância da participação da comunidade no projeto?

Pérsio Sposito – A importância da participação da comunidade é essencial e queremos expandir isso. Entretanto é preciso desenvolver o olhar crítico sobre Gosto vs. Função das terminologias (com ênfase para a segunda). Assim, cria-se o costume de se observar as ramificações cujas decisões presentes terão para além do termo que melhor corresponde a uma palavra em inglês. É difícil, mas ultimamente necessário. Temos certeza de que a visão de fãs e criadores de conteúdo que vocês tinham antes de participar da equipe acabou “passando de nível”, permitindo-os observar nuances que jamais seriam notadas quando se olha de “fora”. Eu é que agradeço a participação de todos e reafirmo que esta edição está em total sincronia com o que está sendo publicado em todos os idiomas. Será muito bacana ver o D&D voltar ao Brasil, especialmente em sua melhor forma. E vocês, estão preparados?

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