Capítulo 8 – Vampiro

Por Ricardo Costa
Imagem de Destaque, artista desconhecido

Mikhail, Bingo, Baruk, Magnus e Verner retomaram o caminho que haviam feito pouco mais de duas horas atrás. Apesar das pesadas nuvens ainda dominarem completamente os céus, escondendo totalmente os astros da noite, a chuva estava mais fraca, porém o caminho era agora mais difícil: o solo da colina que subiam havia se convertido em lama grossa e pedras escorregadias, o que dificultava bastante a cavalgada. Após quase uma hora, os cinco chegaram em seus quatro cavalos. Estavam novamente em frente ao grande portão de ferro, guardado pelas colunas brancas encimadas pelas gárgulas, que aparentavam ainda serem mais nefastas, devido aos raios e relâmpagos que lhes serviam de pano de fundo.

Em meio aos ruídos da água corredia e dos trovões eventuais, um outro som se propagava vindo da decadente mansão. Era a música melancólica de piano que, como da vez anterior, era tocada, preenchendo o já sinistro ambiente com uma aura ainda mais sombria. Os aventureiros encharcados desmontaram e amarraram as rédeas dos animais, que estavam bastante agitados, em um tronco de uma árvore morta, próximo à entrada. Fitaram então o portão.

– E agora… batemos à porta com educação? – Perguntou Bingo, olhando para Magnus.

– Agora arrebentamos esse portão. Um golpe de meu machado deve bastar! Sai da frente, pequenino… – disse, resoluto, Baruk. O anão rapidamente retirou o machado de lâmina prateada das costas e quando ia começar a erguê-lo para um golpe, foi parado pelo clérigo de Mystra, que o deteve firmando-lhe a mão no ombro.

– Não, Baruk! – ponderou, Mikhail para o companheiro. – Vamos tentar não despertar tanta atenção. Uma abordagem silenciosa pode ser melhor do que um estardalhaço. – voltou-se para o pequenino, em um pergunta já conhecida entre eles – Bingo pode abrir a porta para nós?

– É claro! Mais rápido que esses raios no céu! – O pequenino sorriu e tirou a sacolinha de couro com as diminutas ferramentas.

Enquanto colocava uma gazua no buraco da fechadura, os heróis perceberam a ruidosa aproximação dos cães. Eram seis feras robustas, que mostravam seus dentes pontiagudos, e vinham em desabalada corrida. Tão rápido quanto seus companheiros sacaram as suas armas, Mikhail retirou um dos pergaminhos mágicos que Kariel havia lhe dado de dentro de sua bolsa. Pronunciou a palavra final do encanto na língua arcana.

 – Somnum!

Os cães, já próximos, caíram imediatamente, escorregando pela lama, em um sono mágico e profundo.

– Nada mal! – Coçou a barba, Baruk – Agora anda, pequenino! Abre logo esse portão!

 As gazuas giraram dentro do buraco da fechadura, a tranca cedeu e o portão de ferro abriu, em um ruído. De armas nas mãos, os heróis caminharam pelo jardim desolado e enlameado, em direção a porta principal da mansão. Bingo não precisou usar suas ferramentas desta vez. A porta estava aberta. Agora podiam ouvir mais claramente aquela a música, que vinha do piano negro de Kyrius, no andar de cima. Andaram devagar, por entre o salão empoeirado e a mobília coberta. O piso de madeira rangia. Os aventureiros tinham uma azulada e tênue iluminação como guia, vinda de uma pequena pedra encantada por Mikhail, e posta em seu pescoço como um colar. Rumavam para escadaria, quando uma silhueta surgiu, descendo as escadas e bloqueando a passagem. Era o idoso que os recebera, horas antes.

– Invasores! Vão embora! Ou perecerão! – A voz do mordomo estava alterada, gutural e mesmo animalesca.

– Saia de nossa frente, senhor… Denian… foi como meus companheiros me disseram que se chama… não pretendo machucar um ancião desarmado! Deixe-nos passar e não precisará se… – dizia Magnus, aproximando-se para remover o obstáculo do caminho, quando foi interrompido por rápido movimento do idoso, que, com um único braço, o ergueu com força sobre-humana e o arremessou em cima de uma mesa de madeira que jazia ao meio da sala, estilhaçando-a ruidosamente.

Mikhail girou seu martelo de guerra e, projetando-se a frente, acertou um golpe que atingiu a cabeça do adversário. Poderia ter esmagado-lhe o crânio, mas aquele não era uma pessoa comum. Talvez não fosse nem mesmo uma pessoa, pensou o elfo de cabelos dourados. O golpe deformou o rosto de Denian, mas ele continuou a lutar, sacando uma espada oculta em sua cintura e investindo contra o herói, que desviou do golpe sorrateiro. Baruk brandiu o machado e conseguiu fazer com ele um corte, abrindo o ventre do inimigo. Ao invés de sangue e vísceras, vermes, insetos e lacraias saíram em profusão daquela abertura. O mordomo, tal qual um saco desprovido de seu conteúdo, foi murchando e caiu ao solo. Os aventureiros deram um passo para trás, em um susto.

– Por Mystra! – exclamou Mikhail, olhando os asquerosos animais espalharem-se pela sala.

– Que nojento! – fez uma careta Bingo.

– Que diabos era esta criatura?! – espantou-se, perplexo, o jovem ferreiro Verner, que nunca havia visto nada assim.

– Também não sei, mas não era nada desse mundo! – concluiu Magnus, levantando-se e refazendo do golpe sofrido.

Contornaram aquele estranho cadáver e subiram as escadas. No andar de cima, viram as portas para alguns quartos e uma porta dupla maior, que levava ao salão onde haviam encontrado Kyrius.

– É agora! Fiquem juntos. Tenho um encanto para nos proteger, antes de confrontar Kyrius. – Mikhail executou uma oração a Mystra e uma energia percorreu os corpos dos seus companheiros, que se sentiram fortificados – Podemos ir!

Magnus se posicionou e com um pontapé poderoso fez abrir as folhas duplas de madeira, revelando novamente o grande salão do piano. Desta vez, no entanto, Kyrius não estava sozinho. Seis guerreiros em cota de malha e capacetes de ferro exibiam espadas e estavam a frente do Lorde de Tyrluk, protegendo-o. Assim que o viu, o ferreiro gritou:

– Mirina! Onde está Mirina, seu maldito?

– Sabia que voltaria com seus amigos, jovem Verner! Antes de vocês aparecerem, já chegava a pensar que não havia mais heróis neste mundo. Talvez aqueles que desejam salvar já estejam salvos! Salvos desta vida medíocre! Mas enquanto a vocês… não lhes caberão saber a resposta. Em breve estarão mortos e nada do que fizeram terá valido a pena! Guardas…matem estes intrusos!

Os soldados rumaram em direção aos recém-chegados e um combate se desenrolou. Kyrius apenas olhava, parado, como alguém que assistia um espetáculo. O barulho do aço ecoava e as lâminas sedentas de sangue fizeram em minutos a primeira vítima: o ferreiro Verner caiu sangrando ao chão. Morreria com um golpe fatal, se não fosse o pequeno Bingo trespassar seu atacante com sua espada curta.

Magnus lutava contra dois, mas o paladino era um feroz e formidável guerreiro. Seus golpes eram tão fortes que empurravam os inimigos para trás quando eram aparados pelas espadas. Os infelizes guardas de Kyrius não puderam contê-lo por muito tempo e Magnus os atravessou com sua arma. Baruk e o machado de batalha que portava também cumpriram sua missão, e dois caíram perante sua fúria. Mikhail matou o último, com um golpe dirigido à cabeça do adversário. Em seguida, o clérigo de Mystra apressou-se a ajoelhar para examinar Verner. Kyrius, apesar do revés, continuava imóvel e, surpreendentemente, sorria. Após algumas palmas, o lorde disse-lhes:

– Vocês são diferentes… mas estão longe de me destruir… Ainda tenho algumas surpresas…

Após alguns segundos, as duas grandes janelas que haviam na sala, uma à esquerda e a outra à direita de Kyrius, se estilhaçaram em vidro e madeira, fazendo grande ruído e dando lugar a duas silhuetas medonhas. Logo viram entrar pelas aberturas, através das grandes cortinas agora esvoaçantes: duas figuras aladas do tamanho de um homem. Eram feitos em pedra cinzenta, assemelhadas com demônios, possuíam cornos retorcidos em suas frontes. Agora lembravam-se todos: eram as gárgulas que vigiavam as colunas próximas ao portão de entrada e que haviam ganhado vida. Caminhavam pesadamente em direção à Comitiva, empurrando tudo que lhes obstruía o caminho.

Nesse novo combate, Bingo e Mikhail se agruparam para combater um dos monstros, enquanto Baruk e Magnus, o outro. As novas armas da Comitiva, muito longe do poder que emanavam suas lendárias e agora desaparecidas versões mágicas, atingiam os corpos de pedra, mas os danos eram poucos, mesmo diante da força e quantidade de golpes. Os heróis esquivavam-se das garras e chifres, mas, vez ou outra, um golpe explodia em suas armaduras, causando dor e hematomas.

– Pelo martelo de Moradin! Esse monstro não cai! – gritou Baruk para Magnus.

– Deve ser uma espécie de criatura mágica… continue batendo e vamos ver…

Uma rachadura apareceu, finalmente. E com mais um golpe, Magnus conseguiu: a figura de pedra se despedaçou aos seus pés. Imediatamente seguiram para ajudar Bingo e Mikhail.  Enquanto os três combatiam, o pequenino decidiu recuar. Tinha outra idéia. Retirou o arco das costas e preparou uma seta para Kyrius. Fez o disparo e acertou o ombro esquerdo do vampiro. O pálido morto-vivo olhou para a flecha cravada em seu corpo, com surpresa, mas não com dor. Com tranquilidade removeu, sem ao menos um gemido, o projétil. Não havia sangramento. Bingo teve em retorno, um olhar agudo, que lhe prometia vingança.

A gárgula derradeira desmoronou finalmente em ruínas. Ao ver a derrota de seus monstros, Kyrius Asa de Falcão disse:

– Isso ainda não acabou!

O corpo de Kyrius então tornou-se uma névoa esverdeada, que flutuou e escapou da sala pelo o que restou da janela destruída. Magnus correu e, para observar, projetou a cabeça para fora da abertura, rápido o suficiente para ver aquela fumaça atravessar o ar e entrar na pequena janela do mausoléu construído no jardim. Os demais agora se reuniam em torno de Verner. O rapaz parecia gravemente ferido. Do seu flanco direito, um corte derramava sangue em profusão. Mikhail estendeu suas mãos sobre o ferimento e executou uma prece. Uma luz tênue e azulada percorreu o corpo do ferreiro e o corte, magicamente, fechou-se. A cor voltou para o antes pálido rapaz e, de imediato, ele recobrou a consciência.

– O que aconteceu? – perguntou, confuso – Estava ferido…

– Você, por muito pouco, não morreu! Seu ferimento foi curado graças à um encanto da divina Mystra – respondeu Mikhail.

– E Kyrius? – quis saber.

– Ele fugiu, aquele covarde! – falou Bingo.

– Ele foi até aquele mausoléu no jardim! – interferiu Magnus, juntando-se aos companheiros – Vi pela janela aquela névoa verde entrar por lá!

– Então vamos. Não devemos perder tempo! – Verner levantou-se, determinado e sentindo-se totalmente recuperado – Temos que salvar Mirina, antes que seja tarde demais!

Os aventureiros então seguiram o rapaz e desceram rápido as escadas, tomando o rumo da área externa da propriedade. Voltaram à chuva e andaram pelo gramado morto e enlameado, onde grandes poças d’água estavam formadas. Caminharam na direção do mausoléu, atentos e em prontidão, ouvidos e olhos em alerta.

A construção fúnebre havia sido edificada como um templo em escala reduzida, apesar de não haver símbolos sagrados à vista. Encimado na entrada, apenas um escudo amarelo, com um falcão negro de asas abertas, símbolo da casa do nobre cormyriano. Era de arquitetura bela, rebuscada com adornos florais em relevo e de paredes bem caiadas e limpas, contrastando com o abandono de seu entorno.

Havia as estátuas, pouco adiante do grande portão de ferro, decorado com vitrais coloridos de motivos geométricos. O belo trabalho em mármore das figuras em tamanho real mostrava uma mulher e um menino de mãos dadas. Pareciam passear, felizes, mas as gotas de chuvas que lhe escorriam das faces de pedra como lágrimas poderiam ser um lembrete de seus trágicos destinos, em um dia tão chuvoso quanto este, anos atrás.

Agora já estavam aglomerados em frente do portão e aguardavam Bingo, que tentava superar uma fechadura com suas traquitanas de arrombamento. Em um “clique”, o portão foi destrancado. Prontos, Magnus empurrou as folhas de ferro e vidro.

Naquele pequeno e triste ambiente, jaziam sarcófagos de mármore. As tampas ornamentadas representavam os mortos, como se estivessem apenas dormindo o sono eterno. Mas, ao invés de dois esquifes, eram três. Um representava uma mulher, cujo nome, Lorana, estava entalhado na pedra. O outro, de uma criança chamada Kelton e o último era identificado sendo o do próprio Kyrius. Examinaram o último. A tampa estava levemente deslocada. Ante a descoberta, Mikhail gesticulou, pedindo atenção e sussurrou para os seus companheiros:

– Segundo Van Dorn, os vampiros precisam dormir em caixões para refazerem suas energias. Se Kyrius estiver aqui, devemos ser rápidos, antes que ele reaja – O elfo loiro retirou algo da mochila: um pontiagudo piquete de madeira. – Temos que fincar uma estaca no coração do vampiro. Isto o destruirá!

– Empurro a tampa, elfo! – ofereceu-se Baruk – e você e o paladino fazem o trabalho!

Magnus tomou a estaca e Mikhail preparou o seu martelo, em completa tensão. Verner e Bingo aguardavam, um passo para trás, enquanto Baruk contou até três e com força, moveu a tampa do sarcófago. Enquanto os dois preparavam o golpe, viram algo que não era aquilo que esperavam.

– Por Helm! Uma escada? – espantou-se Magnus

– Esse caixão é uma passagem! Kyrius deve ter um covil subterrâneo. É para lá que deve levar suas presas – constatou Mikhail.

– Então é lá que deve estar Mirina! Precisamos de uma tocha! Vamos descer… – apressou-se Verner, porém o ferreiro foi detido por Magnus, que o parou com a mão espalmada.

– Você deve ficar! O risco é grande. Já vi o covil de um vampiro, anos atrás, no Vale da Adaga. Você é corajoso, Verner, mas não possui ainda a experiência necessária. Se for conosco, será mais uma fonte de preocupação!

– Mas minha noiva está lá, Magnus! Tenho que salvá-la! Será que não compreendem? – replicou o ferreiro, veemente.

– Magnus está certo, Verner! – Mikhail disse, sereno – Você quase morreu lá em cima. Deixe-nos cuidar disso. Faremos o possível para salvá-la!

Verner ponderou e cedeu, guardando sua bela espada na bainha.

– Está bem… que Tyr os acompanhem! Rogo a ele que os traga vivos e com minha Mirina! Boa sorte!

Um a um, foram entrando no sarcófago e descendo aqueles degraus rústicos, escavados na terra, da estreita escadaria, iluminados pela pequena pedra encantada por Mikhail, até desaparecerem completamente nas entranhas da terra.

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