Capítulo 5 – O Ferreiro

Por Ricardo Costa
Imagem de Destaque, “O Velho”, de Deckard Cain

A pesada porta de madeira porta abriu-se em um rangido e a modesta taverna foi revelada. Iluminada por lanternas penduradas no balcão e por velas, que derretiam em cima de canecas viradas em cima de algumas mesas, a Face do Velho era pequena e rústica, com móveis simples e prateleiras com velhas e empoeiradas garrafas. Um grupo de oito pessoas, sete homens e uma mulher, com roupas campesinas, debatiam algo acaloradamente, mas aos poucos fizeram silêncio e olharam, desconfiados, para os forasteiros assim que a porta se abriu. O homem que recebeu a Comitiva da Fé era um ancião enrugado e calvo, de barbas grisalhas, compridas e desgrenhadas e poucos dentes na boca. Arthos falou com ele, após sacudir-se e retirar a capa pesada de chuva.

– Porque aquele negócio com o colar?

– Coisas estranhas acontecem aqui, meu senhor! Coisas inexplicáveis! Dizem que a fé e a prata afastam criaturas malignas! É o que diz o povo. Não sei se é verdade, mas não me custa a precaução!

– Que tipo de coisas estranhas? – quis saber Mikhail.

– Pessoas desaparecem, sombras são avistadas à noite, uivos, coisas assim… mas não deve ser por isto que estão aqui, para ouvir estes rumores e a superstição de um velho tolo. Meu nome é Laus. Devem querer quartos para passar essa tempestade. Tenho todos vazios… não temos mais mercadores por aqui como antigamente. Posso escolher alguns que não estão com goteiras e arrumar palha nova para os colchões.

– Um banho quente e uma sopa seriam bons também – completou Bingo.

– Como quiser, pequeno senhor! – disse, enquanto voltava para trás do seu balcão – Se quiserem um quarto para cada, serão seis peças de prata. Tenho também um quarto grande, com beliches, se quiserem ficar juntos. Este custará cinco peças.

Foi Limiekki que retirou do cinto, uma pequena bolsa de couro e dela, as cinco moedas pedidas e mais outra, uma dourada.

– Senhor Laus… procuramos por um companheiro desgarrado. Geralmente as informações circulam e se tiver ouvido algo, posso lhe recompensar com uma peça de ouro.

O idoso taverneiro olhou para os recém-chegados, pensou na sua decadente estalagem e na moeda que girava na mão do loiro nortista da Comitiva.

– Qual é o nome de seu amigo desaparecido, meu senhor?

– O nome dele é Kelta Rawl. É um meio elfo! – respondeu Limiekki, preocupando-se em falar em voz baixa.

– Senhor… o nome não me é familiar, mas surgiram forasteiros aqui, na última semana! Conheço alguém de confiança, que pode saber mais sobre isto. Podem ir ao quarto. Mandarei preparar água quente para encher as tinas do banho. Quando descerem para a sopa, já devo ter a informação.

– Grato! – disse Limiekki, entregando ao velho as suas moedas e recebendo de volta uma chave de cobre esverdeada e uma lanterna.

– O quarto é o número três, senhores. Podem descer ao fim da tarde para o jantar.

A Comitiva então subiu uma escada de madeira, com degraus irregulares, que rangiam ao pisar, até o patamar superior, que levava a um corredor estreito. Após duas portas, encontraram o quarto com o número três pintado em negro. Limiekki colocou a chave e girou o mecanismo. A porta se abriu e a luz da lanterna desvendou um cômodo pequeno e simples com quatro beliches velhos, de madeira rústica e colchões de palha. Duas tinas de madeira ficavam em um canto, próximas a uma cômoda. Ao contrário do que o velho havia dito, uma goteira pingava no centro do aposento, molhando um desgastado tapete. Uma única janela oferecia uma visão da ruidosa chuva e deixava passar a luz dos clarões oferecidos pelos raios da tempestade.

– Não é o Velho Crânio, mas é melhor do que ficar lá fora! – consolou-se Bingo.

Os viajantes retiraram suas roupas molhadas, substituindo por outras secas, que estavam guardadas nas mochilas impermeáveis. A água quente chegou minutos depois, trazida em baldes, por uma mulher robusta e de semblante sério. O líquido fumegante encheu as tinas. Entrar naquela água, em meio ao frio do inverno era revigorante, porém sair dela tornava-se um desafio. Descansaram por algum tempo e, após se vestirem novamente com trajes secos, deixaram o quarto, rumo novamente ao pavimento inferior, em busca da sopa que lhes esquentaria o estômago.

Ao descerem as escadas, podiam ver que, entre as mesas dispostas, o debate que acontecia quando chegaram havia se acirrado. Um jovem, com não mais do que vinte primaveras, que tinha ao lado uma bela mulher ruiva, bradava para uma pequena platéia, que agora contava com cerca de dez ouvintes.

– Não podemos mais agüentar isto! O que está acontecendo com os que desapareceram, pode acontecer conosco! Não entendem? Temos que ir até Lorde Kyrius! Ele tem que sair de sua mansão e colocar sua guarda para nos proteger, já que os Zhentarim não o faz!

– Verner… Desde a morte da esposa e do filho, Lorde Kyrius não é visto de perto! Ele não recebe ninguém e nem sei se ele está mesmo vivo ou se é outra pessoa que assume o nome dele e se esconde naquela mansão na colina. Se for ele mesmo, não se importa mais com o que acontece aqui já faz um bom tempo! – interferiu um homem barbudo.

– Salovar está certo… e cuide-se ao falar dos Zhentarim, garoto! – disse um idoso magro, de cabelos ralos e brancos – Se ouvirem você falar assim, acabará como aqueles dois que estão apodrecendo lá fora, pendurados pelo pescoço!

Ao ver os forasteiros que desciam as escadas, o tom abrandou e o jovem calou-se, ainda que sua expressão fosse de revolta. Os aventureiros olharam-se, mas não interferiram. Sentaram em uma mesa circular.

– O que será que está acontecendo por aqui, hein? – falou baixo o anão Baruk.

– Pela reação destas pessoas, não é algo que querem dividir com estranhos como nós – respondeu Kariel.

– Vou perguntar ao estalajadeiro sobre o contato – disse Limiekki.

– Irei com você! – Ofereceu-se Magnus. O paladino de Helm sentia uma atmosfera desagradável no ar, que o incomodava. Sentia-se como se algo oculto e maligno pudesse cair sobre ele e seus amigos naquela cidade. Queria logo entrar em ação, ao invés de esperar ser surpreendido por alguma sombra sorrateira.

– E não se esqueçam de apressar a sopa! – acrescentou Bingo aos amigos que saíam.

No momento em que se aproximaram do balcão onde estava o velho Laus, o jovem orador também o fez, junto com a mulher de cabelos vermelho-alaranjados, que o acompanhava. O moço ficou a certa distância, o que deixou Limiekki a vontade suficiente para falar com o estalajadeiro, sem que suas palavras fossem ouvidas.

– Senhor Laus… já conseguiu a informação sobre nosso amigo perdido?

– Na verdade, não, senhor! – respondeu o ancião – Mas posso lhe indicar quem sabe.

– Quem? Onde encontramos esta pessoa? – perguntou Magnus.

– Ali mesmo! – apontou a outra ponta do balcão – O ferreiro Verner! Ele sabe sobre seu amigo! Podem falar com ele!

Magnus e Limiekki então se aproximaram do rapaz, que bebia uma cerveja escura em um copo simples de cerâmica. Magnus o interpelou.

– Desculpe-nos, senhor, mas é o ferreiro Verner? Eu chamo-me Limiekki e este é meu amigo Magnus. O estalajadeiro disse-nos que talvez tenha algo para nos informar sobre um amigo perdido.

O rapaz então olhou para os aventureiros, examinando-os, e depois sussurrou algo ao ouvido da mulher, que deixou o balcão, indo sentar-se sozinha em uma mesa próxima. Em seguida, voltou-se ao paladino.

– Sim. Sou Verner Sharn. Laus me disse que procuram um meio-elfo chamado Kelta. Sei onde ele está, mas para dar-lhes esta informação, preciso de algo em troca.

– Temos dinheiro. Faça o seu preço. Se a informação for útil, faremos o pagamento! – disse Limiekki.

– Não se trata de dinheiro. Deixe-me explicar… sobre esta cidade, paira algo sombrio, além dos Zhentarim. Pessoas estão desaparecendo e ninguém pode mais sair à noite. Há relatos de criaturas estranhas vistas no céu e lobos gigantes pelas estradas. Nosso governante, Lorde Kyrius, tornou-se recluso desde que perdeu sua família em um acidente e nem ele e nem a guarda da cidade fazem nada por nós. Muito menos os Zentharim. Tentei convencer outros a ir comigo até a mansão de Kyrius, cobrar providências, mas eles têm medo de subir a colina. Se concordarem em ir comigo, como escolta, falarei tudo que sei para ajudar o seu companheiro.

Limiekki e Magnus olharam um para o outro por um instante e decidiram concordar com a barganha.

– Está certo. Seremos sua escolta. Quando pretende ir até este lugar? – perguntou Magnus.

– Agora mesmo! Ainda chove, mas se quiserem salvar o seu amigo, teremos que ir imediatamente! A execução dele foi antecipada para o nascer do sol.

– Como os Zhentarim irão executá-lo? –  Magnus quis saber.

– Enforcamento. Este Kelta e outros armaram uma emboscada contra a guarnição, mas foram derrotados e capturados.

– Vamos fazer isto logo, então! Vamos até esse tal Lorde e, em seguida, vamos arranjar um meio de soltá-los. Quanto mais rápido, melhor! Aproveitaremos o elemento surpresa que a noite e a tempestade pode oferecer – disse Limiekki.

– Vou levar Mirina, minha noiva, para a casa dela e os reencontrarei aqui.

– Está certo! Avisarei aos nossos companheiros! Estaremos prontos quando voltar.

O jovem deu um sorriso fugaz, levantou-se do banco e chamou a garota. Despediu-se do velho Laus, tomou uma capa de couro, que estava pendurada em um gancho na parede, e abriu a porta, deixando passar uma rajada fria de vento e respingos de chuva. Lá fora, os raios ainda espalhavam sua luz branca pelos céus, seguidos de terríveis trovões.

Contínua no Capítulo 6 – Lorde Kyrius.

 

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