Capítulo 4 – Estrada para Tyrluk

Por Ricardo Costa
Imagem de Destaque, autor desconhecido

1º de Martelo, Ano da Harpa Escondida (1.403 CV)

Passaram-se duas horas após a partida e a Floresta do Rei havia ficado para trás. O caminho lamacento, margeado por árvores, aos poucos ia sendo substituído por uma pavimentação rústica, feita com grandes seixos arredondados e por uma paisagem de vegetação esparsa e eventuais campos. O céu estava completamente nublado e o vento que trazia um frio cortante era o elemento constante em todo o percurso. Bingo, Limiekki, Arthos e Magnus pouco ou nada conversaram, atentos ao caminho e inibidos pelo clima. Já dentro do carroção, Baruk dormia e roncava entre alguns tapetes, Vaera lia um pequeno livro dedicado à Rillifane Rallathil[1] e Kariel observava Mikhail experimentar uma série de perguntas vindas do curioso Fibin.

– É verdade que vocês, grandes sacerdotes, podem trazer uma pessoa da morte? – o rechonchudo pequenino mantinha os olhos atentos.

– Sim. – respondeu Mikhail – Os deuses dão este poder para seus discípulos que possuem grande acúmulo de conhecimento e que são devotos praticantes de seus ensinamentos, mas trazer pessoas da morte requer um ritual envolvendo materiais caros e é limitado por algumas regras específicas.

– Regras? Que regras? – perguntou curioso.

– O morto não pode ter falecido de causas naturais e sua alma deve desejar voltar. Devemos ter o corpo ou parte dele e a pessoa não pode ter morrido há mais de 10 anos. Basicamente, é isto que devemos seguir.

– Quer dizer que se seus amigos morrerem você pode trazê-los quantas vezes quiser, se seguir estas regras?

– Não! Isto só pode ser feito no máximo por três vezes. Cada vez que uma pessoa retorna da morte, seu corpo fica mais frágil. Após a terceira vez, não há mais volta.

– Melhor três do que nenhuma! – exclamou o pequenino – Vou me lembrar de ficar perto de você se tivermos problemas.

Do lado de fora, após uma curva que contornava uma grande rocha, Magnus e Arthos, que cavalgavam mais a frente, avistaram algo que os preocupou. Havia um acampamento militar à margem direita da estrada. Eram seis tendas e havia cavalos e soldados, alguns usando um uniforme amarelo e branco sobre a cota de malha prateada, semelhante ao da patrulha Zhentarim que haviam enfrentado na noite passada, e outros com peitorais de aço e capas púrpuras, padrões para os militares cormyrianos.

– Pelas Barbas de Elminster! – exclamou Arthos para seu amigo Magnus – Um bloqueio! O que faremos!?

– Não podemos retornar e não existe outro caminho. Temos a documentação… vamos mostrá-la e esperar que eles não desconfiem de nada. Caso contrário vamos ter que lutar! Avise aos outros!

Arthos atrasou o galope e trocou algumas palavras com Limiekki e Bingo, pedindo que agissem com naturalidade e mostrassem os documentos entregues por Zender. Bingo, o pequenino de cabelos negros, assentiu e endireitou-se no assento do coche e o mateiro, que lançava um olhar agudo para os soldados retirou, relutante, a mão direita que repousava no cabo da espada. O nome verdadeiro de Limiekki era Siegel O’Bloud e ele havia nascido em Forte Zhentil. Nutria um forte ódio por Fzoul e os Zhentarim, culpados pela crueldade e pela tirania que governavam sua terra natal. Eram seus inimigos e ao vê-los, algo dentro de si acelerava o seu coração, impelindo-o a lutar. Limiekki, no entanto, controlou seu ímpeto, disfarçou sua expressão, e tomou o tubo de couro onde estavam os papéis com os selos reais de Cormyr, guardado em um compartimento atrás do banco de condutor.

Arthos avisou também os que estavam no fundo da carroça. Kariel e Mikhail acordaram Baruk. Os quatro sentaram-se e permaneceram quietos, num estado de expectativa.

Quatro soldados esperavam a carroça passar, um Zhentarim e três cormyrianos. Limiekki parou o carroção ao lado do quarteto. Magnus e Arthos também fizeram o mesmo com os seus cavalos, no aguardo dos acontecimentos. Os cormyrianos tinham a estatura média, cabelos negros e curtos, deviam contar em torno de trinta primaveras. Já o Zhentarim era um pouco mais jovem, um homem alto, de cabelos compridos e loiros, olhos azuis e frios, e que possuía um bigode grosso que descia a face e encontrava-se com suas suíças. Vestia uma armadura completa e uma capa amarela.  Voltou-se para Limiekki, que conduzia as rédeas.

– Salve Bane, Salve Fzoul! – saudou, pousando subitamente o punho direito fechado sobre o peito.

– Salve! – respondeu Limiekki.

– Sou o Capitão de Armas Luden. Em nome do Rei Azoun VI e do Grande Fzoul Chembryl, ordeno que digam o que transportam e para onde vão.

– Transportamos um carregamento de vinhos e algumas mercadorias em nome de Lorde Thorn Emmarask. Estamos rumando para a fronteira leste, em direção da Costa da Espada. Temos os documentos. – respondeu Limiekki, entregando ao homem os pergaminhos que estavam dentro do tubo.

O oficial examinou o texto e os selos reais, depois voltou-se para Limiekki.

– A documentação está correta. Os vinhos Emmarask são os melhores… acredito que o Lorde Emmarask não se importará se ficarmos com um pequeno barril para esta dedicada guarnição – disse, devolvendo os documentos – Dragão Negro Falker… vá e traga um traga um barril para nós, presente de Lorde Thorn Emmarask.

O cormyriano caminhou em direção ao fundo da carroça. Usou a pequena escada de madeira para subir e, ao entrar no compartimento coberto pela lona branca, viu os engradados e barris, além dos quatro passageiros, que se sentavam bancos de madeira, colocados nas laterais, próximos à entrada. O cormyriano os examinou com um olhar detalhado, e sua expressão foi de surpresa.

– Três elfos, um pequenino e um anão juntos? Ver cinco de raças assim tão diferentes juntos é algo muito raro! Por ordem do Capitão de Armas, devo levar um destes barris de vinho.

Do lado de fora, o Capitão de Armas Luden examinou Limiekki e reconheceu nele algo familiar.

– Seu sotaque é de Forte Zhentil, condutor? A cor de seus cabelos e a altura também são compatíveis com meus compatriotas. Qual é o seu nome.

– Siegel, senhor. E sou um zhentilar, como deduziu! – disse Limiekki – Trabalho com meus companheiros escoltando mercadorias por toda Faerûn. As estradas são cheias de perigos, como deve saber.

– Um trabalho necessário, sem dúvida, mas não deveria ser feito por um zhentilar. Ao invés de trabalhar como mercenário devia juntar-se ao exército Zhentarim. Lorde Fzoul convocou todos os zhentilares que desejassem participar de sua glória a se juntarem ao seu exército. As vitórias para as quais o Lorde Fzoul nos guia trazem muitas riquezas para aqueles que fazem parte de nossas fileiras. Poderá receber um bom soldo, terras e usufruir do que quiser entre os povos conquistados. Basta que tenha disciplina, coragem e obediência. Pense nisso.

– É tentador, senhor! – falou o mateiro, fingindo interesse – Posso procurá-lo, após este meu contrato?

– Sim. Estarei em Marsember daqui a um mês. Venha e terá um lugar entre…

Repentinamente, em meio às tendas brancas do acampamento militar, surgiu flutuando uma criatura medonha. Possuía um corpo esférico, com cerca de três metros de diâmetro, coberto por um couro enrugado e amarronzado, de onde partiam oito tentáculos, cada um deles com um pequeno olho em sua ponta. O monstro tinha um grande olho central e, abaixo dele, uma boca enorme e permanentemente aberta, preenchida de dentes afiados e agudos como pontas de lanças. Moveu-se em direção à margem da estrada para ver a carroça e tomou novamente o rumo do interior do acampamento. Os soldados que ali estavam não pareciam se importar com aquela visão aterradora, mas ela amedrontou os cavalos, que empinaram e puxaram repentinamente os arreios e as rédeas que os controlavam. Bingo e Magnus tiveram que usar de agilidade e equilíbrio para evitarem tombar de suas montarias, que pulavam agitadas, enquanto a carroça sofreu um forte solavanco. Um barulho surdo de madeira vindo da lona indicou que algumas das mercadorias tinham sido derrubadas.

– Um observador[2]! – exclamou Limiekki, levantando-se do banco e buscando a espada.

– Não se preocupe. Ele está do nosso lado! – disse o Capitão Luden, depois que a criatura afastou-se.

Dentro do carroção, o repentino movimento desequilibrou os heróis e o soldado cormyriano. Este último tivera a pior sorte. Como estava de pé, tombou em meio aos barris e barriletes e alguns deles caíram-lhe por cima. Após reestabelecerem o equilíbrio, Baruk e Kariel foram imediatamente auxiliar o homem caído.

– O senhor está bem? – perguntou Kariel, estendo-lhe a mão.

– Sim – disse o soldado, aceitando a ajuda – mas um barril que caiu sobre mim fez um estranho ruído metálico. Não estavam carregando vinho? Acho que seria bom olhar o que há dentro dele.

Kariel e Baruk olharam-se por um segundo. O anão retirou, veloz, o machado que guardava nas costas.

– Deixe o barril onde está, ou eu vou partir sua cabeça como se fosse um melão. – disse o anão, ameaçador.

– As palavras de meu amigo não são vazias. – complementou Kariel – Somos mais poderosos do que pode imaginar. Se avisar algo aos seus amigos Zhentarim, iremos lutar com todos nesse acampamento, mas garanto que você será o primeiro a ir de encontro à Kelemvor[3]!

Surpreendentemente, o cormyriano olhou para os dois e sorriu, enquanto agora era observado também por Fibin, Mikhail e Vaera, que haviam se aproximado e estavam com suas armas nas mãos.

– Amigos Zhentharim? Eles não são meus amigos, elfo. Somos obrigados por nosso odiado rei a obedecê-los! Devem ser dos rebeldes da floresta. Se forem, não precisam se preocupar comigo. Muitos de nós admiramos vocês, mas não podemos nos unir ao seu grupo por questões de dever e por medo de represálias às nossas famílias.

Neste instante, um chamado foi gritado para dentro do carroção. Era um dos soldados cormyrianos que haviam ficado do lado de fora.

– Dragão Negro Falken? Está bem aí?

– Sim! – gritou em retorno – Aguardem aí fora que já estou saindo.

Kariel, com um gesto, pediu para Baruk se afastar, enquanto o soldado se levantava.

– Dragão Negro… esse é um título desonrado. Gostaria de servir como um Dragão Púrpura, como meu pai, nos tempos de Azoun IV e meu avô, no reinado de Righaerd II! Tínhamos orgulho e virtude… hoje, pouco mais somos que serviçais humilhados destes bandidos do Norte. Por favor, deem-me o maldito barril de vinho e vou-me embora.

Os heróis olharam-se e decidiram baixar as armas. Baruk e Fibin moveram um dos barris de carvalho, deitando-o no chão e rolando-o em direção da traseira do carroção, enquanto Falken aguardava em pé. De frente para Kariel, Vaera e Mikhail, ele disse:

– Espero que Tyr[4] os ajude! Não sei como esperam vencer estes Zhentarim, rebeldes, mas saibam que nossas esperanças estão com vocês.

– E espero que suas espadas também, quando for a hora! – completou Mikhail.

– A minha será! E estou certo que a de outros também! Boa sorte! – finalizou o militar, deixando a carroça para, em seguida, juntos com seus companheiros de armas, descer o barril para o solo.

Retirado o vinho, o Capitão de Armas liberou o caminho da Comitiva, que se pôs novamente a percorrer a estrada que seguia rumo Noroeste. Foram mais quatro horas de viagem, subindo cada vez mais, à medida que se aproximavam da cordilheira nevada dos Picos da Tempestade. A altitude trazia ainda mais frio, castigando, em especial, os quatro que estavam ao desabrigo da lona branca. Iam encolhidos, escondidos sob as roupas de pele fornecidas pelos Últimos da Floresta. Infelizmente, para os heróis, nuvens cinzentas começaram a se adensar e após alguns relâmpagos e trovões, iniciou-se uma pesada chuva de tempestade.

Encharcados, enxergaram com esperança o início da cidade de Tyrluk. Era uma vila pequena, com casas de madeira, a maioria em mau estado. Não havia pessoas nas ruas, mas algumas luzes tremulantes que saiam de uma ou outra janela informavam que não se tratava de uma cidade fantasma. Mesmo ao chegar ao centro, o cenário não se tornou melhor: uma igreja queimada e uma praça onde, em um patíbulo, balançavam ao vento forte dois enforcados, davam a Tyrluk uma aura macabra, que inquietava os cavalos e deixavam nos aventureiros uma sensação de algo ruim poderia lhes acontecer a qualquer momento. Magnus e Arthos procuravam uma estalagem, mirando algumas placas desgastadas de madeira que indicavam alguns poucos estabelecimentos. Em uma delas, fixada sobre a porta de madeira de um antigo sobrado, um rosto mal entalhado acompanhava uma bem-vinda indicação.

– Estalagem A Face do Velho – anunciou Arthos ao amigo paladino – Deve ser a única estalagem da cidade.

– Qualquer abrigo nesta tarde miserável de inverno será uma benção dos Deuses. Vamos parar e amarrar os cavalos. – comandou o paladino Magnus.

Havia, ao lado do sobrado, um abrigo para os cavalos, que não passava, na verdade, de um prolongamento do telhado construído na parede lateral da estalagem, sustentado por duas colunas de madeira. Arthos e Magnus desmontaram e ataram suas montarias. Houve espaço também para Limiekki abrigar lá a carroça. Os aventureiros então começaram a se reunir, a exceção de Vaera. A elfa não quis descer do interior da carroça.

– Porque não vem, Vaera? – perguntou Fibin.

– Devo lembrar-lhe que temos aqui milhares de peças de ouro. Não deixarei esta carroça desguarnecida em uma cidade estranha e controlada por inimigos por nada. Acho que você deveria ficar também, Fibin! Não somos heróis poderosos como a Comitiva da Fé para fazer diferença em uma batalha, mas podemos muito bem nos virar com eventuais ladrões.

– Ah! Que pena… queria muito uma canja quentinha! Mas você está certa! Vamos ficar! – decidiu o roliço pequenino.

– Vocês ficarão bem sozinhos? – perguntou Mikhail, já fora da carroça.

– Sim! Temos mantas e provisões. Ficaremos aguardando o retorno de vocês! Não se preocupem! Boa sorte e espero que consigam informações sobre nosso companheiro desaparecido.

Deixando os dois rebeldes na carroça, os heróis se agruparam na porta de entrada d’A Face do Velho. Era uma porta de madeira reforçada com ferro e que possuía uma portinhola à altura dos olhos. Arthos tentou empurrá-la, mas estava fechada, assim como as janelas. Uma luz vinda das frestas na madeira e de debaixo da porta indicava que o lugar não estava vazio.  O ruivo espadachim então bateu três vezes com seu punho.

– Procuramos por abrigo nesta tarde chuvosa.

Por alguns minutos, não houve resposta, porém, quando começavam a pensar em outra alternativa, a portinha abriu-se e por ela, uma mão de dedos velhos e nodosos exibiu um colar com um pingente em prata, gravado com o símbolo sagrado de Tyr. A voz rouca que saiu detrás da porta, disse.

– Em nome de Tyr, segure o símbolo sagrado!

Arthos nada entendeu, mas fez o que o homem havia pedido. Apertou o pingente e em seguida soltou-o. O colar foi removido da portinhola e logo após um arrastar metálico e um rangido de dobradiças, a porta foi aberta.


[1] Rillifane Rallathil – Deusa élfica da natureza.

[2] Observador ou beholder – criatura monstruosa e inteligente, cujos múltiplos olhos possuem uma série de propriedades mágicas destrutivas.

[3] Kelemvor – Deus dos Mortos e Juiz dos Condenados.

[4] Tyr – Deus da Justiça.

 

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